sábado, 19 de junho de 2010

O que é santidade? V

Entre outras coisas, vimos no texto passado que, Evangelho não é mudança de vida; mudança de vida é apenas o resultado inevitável na vida de quem recebe o Evangelho. 

Pois bem, muitos já estão cansados de saber que precisam mudar. Então, onde está a boa-nova em dizer o que tantos já sabem? Isso mais facilmente traz desespero ao invés de esperança. 

Não que seja desnecessário falar sobre mudança de vida. A Bíblia fala sobre mudança de vida. Só não somos biblicamente autorizados a aderir a esse reducionismo mundano de transformar nisso a vida cristã.

Mais do que natural que o cristão queira uma vida santa, pois, com Deus  no coração, não dá outra, ele vai querer fazer a vontade do Pai; e o Pai quer o melhor para nós. Mas, além da ênfase equivocada em cima dessa mudança, geralmente as pessoas se perdem também no “como”.

- Sei que preciso mudar, mas como faço isso?
- Abandone seus pecados!
- E como abandono meus pecados?
- Santificando-se a cada dia.
- E como eu faço para me santificar?
- Deixando de ver, ouvir, comer e vestir tudo o que não agrada a Deus.
- Mas como eu consigo deixar essas coisas?
- Estando cada dia mais perto de Deus.
- E como exatamente eu faço para estar cada dia mais perto de Deus?
- Nossos pecados fazem separação entre nós e Deus, então, você deve abandonar seus pecados!

Obviamente, você percebeu que o diálogo acima é uma conversa tautológica, que não chegará a lugar algum. E é justamente esse tipo de cristianismo, que não chega a lugar algum, o único ao qual muitos têm acesso.

Nesse ponto, facilmente, alguém poderá citar um verso muito conhecido, sobretudo pelos adventistas do 7º dia: “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Pv28:9). “Está vendo?”, dirão alguns, “Primeiro precisamos guardar a lei, abandonar nossos pecados, santificar-nos, se quisermos chegar-nos a Deus”. Ignoram que o texto fala dos que, deliberadamente, fazem ouvidos moucos aos ditames divinos (v. 14) e com isso já demonstram não permanecer nEle, pois, “todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu” (1 Jo3:6). Cristo atende a toda oração de quem permanece nEle: “Se permanecerdes em Mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será concedido” (Jo15:7).

O texto de Provérbios é destinado àqueles que desviam seus ouvidos, viram as costas, recusam-se resolutamente a ouvir e não estão nem aí para atender a vontade de Deus. Se não querem ouvir a Deus, graças a Deus que Ele também não os ouve. Pois um coração longe de Deus é perito em pedir coisas para sua própria ruína (Je.17:9; Jo15:7; Tg4:3).

Sendo assim, é biblicamente inaceitável usar uma passagem como essa para fundamentar a ideia de que devemos nos santificar a fim de sermos aceitos por Deus. Não é disso que a passagem trata. Primeiro Deus nos aceita, e então, inevitavelmente, nos santifica.

Expliquemos melhor essa questão, até mesmo para depois não dizerem que estou ensinando que podemos viver em pecado e ao mesmo tempo estarmos salvos. Jamais poderia dizer tal coisa sem incorrer em rebaixamento do sacrifício de Cristo, que veio nos salvar do pecado (Mt1:21), e não no pecado. A questão é que em todas as ocasiões em que a Bíblia apresenta Deus se negando a aceitar oração, sacrifício ou oferta de alguém é porque esse alguém não o fez com verdadeira contrição. Se há deliberada falta de santificação, esse é o simples indicativo de que a pessoa não está em espírito contrito. Sendo assim, porque enfatizar tanto a santificação, se ela é apenas a ponta do iceberg?

Veja um exemplo da biblicidade desse conceito: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, por que as vossas mãos estão cheias de sangue” (Is1:15). O capítulo fala muito em purificação, etc. Porém, é nítido nesse verso, bem como em todo capítulo 1 de Isaías, que o que Deus condena é a hipocrisia (vimos em "O que é santidade? III" um pouco da origem dessa hipocrisia). O que Deus condena é o viver em pecado e ainda assim viver seu “cristianismo” como se nada estivesse acontecendo.

É fato que Deus pede que nos purifiquemos, mas o método de Deus parece bem diferente daquele que tantos têm usado e ensinado. Veja o que Ele diz mais adiante em Isaías 1: “[1.º]Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; [2.º]ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is1:18). Percebe? A maneira divina de ser puro e livrar-se do pecado é: “Vinde, e assim podereis ser santificados”. A maneira humana é: “Santificai-vos, e assim podereis vir”. Ah, meu amigo, tem tanta gente pregando isso de forma velada por aí! Preste mais atenção nos sermões, palestras e conversas dos cristãos em geral, nas suas próprias, para ver o quanto desse conceito está entranhado em toda parte.

Uma passagem usada pelos adeptos dessa que podemos denominar de santificação paranóica é: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza” (Tg4:7-9). Hum! E agora? O texto parece claro ao dizer que primeiro devemos santificar-nos para que Deus nos aceite, não é?

Analisemos mais de perto. O verso 9 conclama a lamentar, chorar e se entristecer. Parece claro quanto a isso também, não é? Contudo, se assim for, há aqui uma contradição com outros textos das Escrituras, como: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”, “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp4:4 e 11). Nunca vi ninguém que usa essa passagem de Tiago para falar de santificação como alvo da vida cristã, pregar com base nela que a vida cristã deve ser aflita, lamentosa e triste. Aí, nessa parte, num instante sabem fazer exegese e contextualização.

Então, vamos lá? Vamos fazer uma exegese simples, porém, séria do texto de Tiago para não termos problemas? Primeiramente, examinemos o contexto do que ele estava falando. O assunto era: “soberbos” (v. 6). Lembra-se que falamos um pouco sobre dependência de Deus e rendição a Ele, no texto passado? Pronto. Olha aí esse conceito de novo! O autor está falando contra os soberbos, aqueles que não querem render-se, sujeitar-se a Deus. Veja que o texto exorta: “Sujeitai-vos, portanto, a Deus” (v. 7).

O texto nos ensina como é que se resiste ao diabo (v.7), como é que se purifica: sujeitando-se a Deus. Somente pela graça de Cristo. Note que antes de Tiago falar em purificação ele fala em sujeição e também na graça divina concedida ao pecador para resistir (v. 6). Nada de purificação por meio do abandonar tal estilo musical ou tal peça de roupa. Não estou dizendo que devemos escutar ou vestir qualquer coisa; estou dizendo simplesmente que o texto não fala sobre isso. Ao contrário, ele aborda o assunto bem da maneira que estamos expondo aqui desde o primeiro post desta minissérie: dependência e sujeição.

Então, se o texto não fala sobre determinado assunto, não devemos inventar. Alguns chamam isso de homilética e acham que está tudo certo. Deve ser homilética mesmo: interpretação com base nas filosofias dos “homi”, em filosofias que são nada mais que moralismo gospel, não conceitos bíblicos. Falam que devemos seguir a Bíblia, mas na hora de especificar o que é santificação e como atingi-la, apelam para toda sorte de convenção social moralista, menos para a Bíblia.

Note também que o texto fala sobre limpar o coração (v. 8). Mais uma vez, vemos que a Palavra de Deus soa diferente dessa ênfase exagerada que vemos por aí acerca de limpar-nos de coisas exteriores.

O termo “pecadores” (v. 8), no original, refere-se a uma classe específica de pecadores. A palavra no grego é “hamartolos, que significa pecador contumaz, homem mau, indivíduo cujo pecado é aberto, evidente, notório” (veja, aquele mesmo pecador deliberado que vimos em Provérbios 28:9 e Isaías 1). Então, o recado é para os soberbos e impenitentes, não para aqueles que assistem a jogos de futebol ou usam maquiagem ao mesmo tempo que pretendem manter uma vida de comunhão com Cristo.

Apelam tanto à paranóia de santificação e abandono de pecado dizendo que é o pecado que faz separação entre Deus e nós. E isso é verdade (Is59:2). Acontece que, para cometermos qualquer pecado, é preciso primeiramente separar-nos de Deus, romper nosso relacionamento com Ele. É impossível um ramo que está ligado à Videira Verdadeira – o que significa que está sendo nutrido por ela – dar frutos ruins ou não dar frutos (Mt7:18; Jo15:5). Como alguém pode dar maus frutos sendo nutrido pelo próprio Deus? Logo, para pecar, temos de nos desligar da Videira, nem que seja por um instante.

É impossível pecar junto de Deus. Veja que os discípulos precisaram andar afastados de Jesus por alguns instantes para, só então, ter aquele vergonhoso debate sobre quem seria o maior no reino (Mc9:33-34). Pedro teve que deixar de olhar para Jesus por alguns segundos e começar a focar sua atenção em outras coisas para começar a afundar, naquela madrugada no lago (Mt14:34).

Uma vez separados de Deus, pecamos. Ao pecarmos, separamo-nos um pouquinho mais. Por nos separarmos mais, pecamos ainda mais. Pecando ainda mais, separamo-nos mais ainda; o que, por sua vez, faz com que avancemos mais ainda no pecado... É uma bola de neve, um círculo vicioso, representado no esquema abaixo.
O que fazemos, então, para quebrar o ciclo? Paramos de pecar? Parece lógico, não? Pois, se pararmos de pecar, paramos de nos afastar. Mas não é assim que funciona. Não conseguimos parar de pecar (Rm3:10-18). Está em nossa natureza humana. Em nosso DNA. É o que adoramos fazer (Rm7:19). É só o que sabemos fazemos, por mais que isso nos machuque. Só estando junto a Cristo para que Ele nos conceda uma nova natureza, por meio de um novo nascimento diário.

Não estou dizendo que um mau comportamento não influencie na comunhão com Deus. Como vimos no esquema, é um ciclo, então uma coisa certamente influencia a outra; mas é um ciclo que se origina no afastamento de Deus. É nesse ponto, então, que o ciclo deve ser quebrado. Só apresentamos mau comportamento quando apresentamos mau relacionamento com Deus, nem que seja por alguns instantes.

Assim, se você está se concentrando em parar de pecar, está principiando no lugar errado, e isso fatalmente lhe levará a um daqueles dois caminhos que vimos no início de O que é santidade? III. Se você quer mesmo parar de pecar, pare de tentar, renda-se e deixe Cristo lutar por você. 

A santificação principia no relacionamento com Deus e serve para fazer com que nos relacionemos melhor com Ele. Qualquer ênfase em santificação em si mesma é antibíblica. Qualquer ênfase em santificação por meio de coisas exteriores é antibíblica. Ninguém peca porque parou de se santificar, mas pára de se santificar porque pecou em parar de se relacionar com Deus. Sendo assim, por que não principiarmos pelo lugar certo? Por que não paramos de enganar os outros e a nós mesmos como se nossos paliativos fuleiros de “vista isso”, “coma aquilo”, “pare de ouvir aquilo outro” nos levassem para mais perto de Deus?

Meu amigo, nossos pecados fazem separação entre nós e Deus. Sabe o que isso significa? Sabe realmente?? Há um escabroso e gigantesco abismo a separar o pecador de Deus. Cristo é nosso único mediador (2Tm2:5), nossa única ponte para chegarmos ao Pai. CRISTO é a ponte! Tem noção do que isso significa? Tem noção do quanto é sério e blasfemo construirmos pontes de moral e bons costumes? Pontes de vestuário e reforma de saúde? Elas parecem seguras a princípio, mas depois se mostram como isopor em meio ao abismo; ao que nos precipitamos no despenhadeiro do pecado, não importa o quão corretos pareçamos.

Paulo disse que a cruz é escândalo (1Co1:18). E como ele estava certo! Para muitos, é escândalo substituir nossas belas e limpinhas obras (aos nossos olhos), nosso vegetarianismo e nossas vestes decentes, por um madeiro rude e ensanguentado. Mas a única ponte segura é essa cruz. Faça amizade com o homem da cruz, conheça-O e Ele lhe conhecerá.

A Bíblia nunca disse que no último dia os que ficarão à parte do reino serão aqueles que não substituíram suas calças por saias, mas aqueles que não substituíram suas vestes pelas vestes do Cordeiro (Mt22:11-13). São aqueles que se preocuparam em cumprir uma porção de coisas exteriores (Mt7:22), mas não se preocuparam em relacionar-se com Ele, em conhecê-Lo intimamente; por isso, Ele declarará nunca tê-los conhecido (Mt7:23; 25:12).

Conhecer a Deus. ESSA é a coisa mais importante. A ISSO devemos devotar nossa vida. ESSA é a ênfase bíblica. Por que, então, tem-nos sido pregado outro evangelho (Gl.1:6-9)?

Devemos buscar a Cristo diariamente porque Ele nos amou primeiro (1Jo4:19), por isso O amamos, e não simplesmente porque Ele pode fazer de nós meninos e meninas bonzinhos. Se você não buscar conhecer a Cristo por causa dEle mesmo ao invés de por causa da santidade que Ele tem para lhe oferecer (lembra que já falamos sobre a teologia da prosperidade espiritual?), ficará sem ambos. Busque a Cristo, e certamente você terá todo o resto (Mt6:33).


Leia também os outros textos desta série

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O que é santidade? IV

Vimos até aqui que o chamado à santidade é algo real e possível na vida de todo verdadeiro cristão.

Vimos também que DEUS é quem provê nossa santidade, por isso, não devemos nos preocupar especificamente em buscá-la, mas em permanecer nEle, e todo o restante - inclusive a santidade - vem por tabela.

É bom dizermos que alguns tomam a santidade como sinônimo de relacionamento com Cristo. Embora eu considere mais adequado colocá-los em níveis distintos, reconheço que, se você chama o seu relacionamento com Cristo de santificação, comunhão, cristofagia (sei lá, acabei de inventar), ou o que for, no fim das contas não importa; o que importa é se você se relaciona com Ele ou não. Até porque temos mais o que fazer do que ficar discutindo minúcias semânticas, né?

Então, se você quer chamar sua comunhão de santificação, mesmo que eu não considere este o emprego mais ajustado do termo, digo a você: “Vai fundo, meu amigo! Busque essa comunhão que você, por algum motivo, denomina de santificação”.

O que não dá é continuarmos achando, mesmo que não teoricamente, que alguma mudança pode ocorrer em nosso caráter se abandonarmos tal e tal coisa. É CRISTO quem muda seu caráter à medida que você contempla o caráter dEle (2Co3:18), inclusive retirando progressivamente do seu comportamento tudo aquilo que não agrada a Deus, por ser nocivo a você. Todo o resto é conversa fiada.

Sim, repetirei isso à exaustão e farei uma lavagem cerebral nos leitores com essa história. Porque chega, né? Dentro do perfil crente que a cristandade tem apresentado ao mundo, praticamente, ou se é libertino ou obcecado por “santificação”, como se isso fosse a finalidade de todas as coisas.

Visto que essa ideia está enraizada no imaginário popular cristão desde sabe-se lá quando, vou repetir neste blog a ideia de que nosso alvo NÃO é a santificação, como se não houvesse amanhã.

Biblicamente, é a presença de Deus que santifica algo ou alguém (Êx3:5; 1Co6:19), e não a presença ou ausência de determinados comportamentos. Eles podem apenas ser indicadores de se você tem permanecido nEle ou não. Só isso. Santidade não pode ser alcançada enquanto a condicionamos a coisas e comportamento, ao invés de condicioná-la a uma Pessoa e relacionamento.

No post anterior, vimos que a santidade é um fruto, não foi? Biblicamente, biblicamente (sim, porque eu amo ser chata repetindo essa palavra, na prática, tão esquecida), para quê serve um fruto? Ouçamos a resposta de Cristo: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt7:16, 20); “porque pelo fruto se conhece a árvore” (Mt12:33). Ou seja, um fruto serve para indicar se estamos em Cristo, pois Ele também disse: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo15:5).

Veja, o fruto não faz o ramo permanecer na videira. O fruto apenas indica se o ramo está totalmente ligado à videira. Viver uma vida de santidade não liga você a Cristo, apenas indica se você está nEle, pois "se alguém está em Cristo, é nova criatura" (2Co5:17).

Claro que quanto mais você se aproximar de Cristo, mais santificada será sua vida; e com uma vida mais santificada, mais você estará em condições de contemplá-Lo mais de perto. É um ciclo, ilustrado abaixo por meio do seguinte esquema (by Tartarugas Ninja. Só falta a cor azul):


Essa luta por alcançar santidade não é de todo infundada. Por textos como: "Esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado" (1Co9:27), alguns creem que devem  martirizar-se para alcançar santidade. Cuidado! A má interpretação de textos como esse também fizeram a festa na Idade Média para "embasar biblicamente" toda a teologia da autoflagelação e indulgências; as quais sobrevivem até hoje, por meio desses conceitos anti-bíblicos e cretinos de santidade que nos são ministrados.

Santidade não é algo que produzimos mediante luta, treino, exercício ou disciplina. Não somos capazes disso, pois, a "nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes" (Ef6:12).

Um autor cristão chamado Morris Venden, comenta:  

“Se não estamos sequer combatendo carne e sangue, então como podemos lutar? Como se combate um espírito? Há somente uma maneira. Você terá que se valer do auxílio de outro Espírito para realizar o combate por você. E é isso que Deus prometeu fazer por nós”[1].

Essa luta não é sua, meu amigo, é de Deus. Tudo o que Ele quer é uma oportunidade de lutar por você essa batalha que Ele já venceu naquele dia em que o único sangue santo e inocente do mundo escorreu naquela cruz do calvário. Sua luta é reconhecer sua impotência para a luta e permitir que Deus lute por você.

Você não deve entregar parte da luta, deve entregar a luta TODA a Cristo e ocupar-se em lutar a luta que realmente nos cabe.

A luta do cristão, ao contrário do que podem pensar alguns, não é em prol de sua Redenção, mas de sua Rendição. É a luta para renunciar o eu (1Co9:27; 15:31; Gl2:19-20), reconhecer nossa dependência obrigatória de Cristo e ir a Ele todos os dias a fim de conhecer melhor Aquele que é tão imensamente gracioso para conosco.

E claro, não podemos esquecer que até mesmo nessa luta de entregar a luta a Deus é Deus quem nos concede a vitória, já que não temos forças nem mesmo para querer ir a Ele, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp2:13), pois "tudo provém de Deus" (2Co5:18), "toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto" (Tg1:17).

Muitos ficam temerosos ante a ideia de não atrelarmos santidade à luta pela ausência total de pecado. Porém, garanto que só o fazemos porque a Bíblia o faz. Biblicamente, os santos, os justos  também podem vir a pecar, mas, quando isso acontece, há uma tristeza tão inominável no coração dele que o faz imediatamente correr de volta aos braços do Pai.

Sabe, o justo e o injusto estão muito próximos e também muito distantes. Morris Venden costuma dizer que “a semelhança entre o justo e o ímpio é que ambos pecam, mas a diferença é que o justo sabe chegar ao arrependimento”. E essa não é apenas uma bela frase, ela está confirmada em 1 João 2:1: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”.

Paulo também descreve isso de certa forma. Leia com atenção: “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. (...) Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado. Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm7:19 e 20 a 8:1). Veja que Paulo estava em Cristo Jesus, não mais havia condenação para ele, embora, vez por outra, consentisse que sua natureza carnal tomasse o controle.

Quando todos entendermos que o propósito da vida cristã não é permanecer justo, e sim, permanecer nO Justo (1Jo2:9) e quando entendermos a diferença brutal entre essas duas coisas, aí saberemos o que é paz genuína. Aquela espécie de paz “que excede todo o entendimento” (Fp4:7), ao invés de viver a farsa do cristianismo cuja principal mensagem é: “Santifique-se”.

Digo farsa porque esse não é o Evangelho. O Evangelho – sempre me ensinaram que significa “boa-nova” – são as boas-novas de salvação, as boas-novas de que você não precisa mais fingir ser o que não é, mas pode ser tudo o que precisa ser em Cristo Jesus. E, obviamente, a santidade vem quando você recebe e aceita o Evangelho genuíno, a verdadeira boa-nova. A mudança de vida é um resultado inevitável na caminhada dos que interiorizam o Evangelho em sua alma, mas NÃO é O Evangelho.


[1] VENDEN, Morris L. 95 Teses Sobre Justificação Pela Fé. Casa Publicadora Brasileira. Tatuí: 2000, p. 205.


Leia também os outros textos desta série

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O que é santidade? III

Atente para uma coisa: Buscar santidade pode fazer com que você nunca a alcance!

Há sérios problemas em se buscar santidade. Um deles é que muitos acham que o caminho correto para chegar a ela é o do passar a fazer algumas coisas e deixar de fazer outras. Raciocinam desta maneira: “Tenho que mudar meu comportamento, deixar de fazer isso e aquilo, se quiser ser santo e ir para o céu”.


Atenção: Tal raciocínio só poderá lhe levar a dois caminhos:

1) Frustração, se você não possuir autocontrole para, aparentemente, vencer o pecado.

2) Soberba, se você possuir autocontrole (coisa que até incrédulos podem ter). Caso seja uma pessoa naturalmente auto-determinada, a soberba poderá lhe sobrevir por você conseguir controlar aqueles pecados mais nítidos, enquanto as pessoas menos disciplinadas caem no pecado, à vista de todos.


O caminho da soberba traz consigo a hipocrisia. Você não mais bebe ou adultera, porém, não perdoa seu próximo, costuma falar ou pensar apenas o mal das pessoas, seus próprios interesses são sua prioridade, enxerga-se como melhor, mais sábio, mais santo do que os que não são tão determinados quanto você, orgulha-se por sua santidade, ou outras coisas do gênero. Você continua no pecado. Porém, como se nada estivesse acontecendo, dedica-se àqueles pecados, por assim dizer, menos barulhentos.


Se você baseia seu cristianismo na maneira como você se comporta, mais cedo ou mais tarde enveredará por um desses dois caminhos. É o destino de qualquer pessoa que baseia sua vida no que ela faz, e não no que Cristo fez e faz por ela.

A questão da "soberba cristã" já foi um pouco abordada em Porque não suporto crentes e Onde estão os fariseus do mundo?. Sendo assim, vamos nos deter um pouco na questão da frustração.

Quantas pessoas não abandonam, pensam, ou já pensaram, em abandonar o cristianismo porque, segundo elas, não têm alcançado resultado? Ora, mas que tipo de resultado elas esperam? Nem falo daquelas que esperam casa na praia e carro do ano. Falo das que se frustram porque não têm alcançado “santidade”. Pior que essa santidade é definida e medida segundo o critério humano, não segundo o critério bíblico.

Muitos se indignam com a Teologia da Prosperidade, mas apenas quando ela abrange o campo material. Contudo, devemos também tomar certo cuidado com a tácita Teologia da Prosperidade Espiritual. Obviamente, prosperidade espiritual é um alvo bem mais nobre. E, justamente por isso, muitos caem.

Um dos problemas está em limitar espiritualidade à santidade. Santidade é um fruto da vida espiritual, não a vida espiritual em si. Vida espiritual consiste em conhecer o caráter de Cristo (Os6:3; Jo17:3). A impressão progressiva do caráter de Cristo no nosso (santificação) é o resultado natural de conhecê-Lo.

Assim, santidade faz parte da vida espiritual, mas tão-somente como resultado, como fruto. E tem gente perdendo o tempo e a paz esperando frutos, enquanto deveria preocupar-se em deixar o Espírito Santo regar a semente e cultivar a planta.

Cristo diz: “Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade” (Lc11:39); “Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!” (Mt23:26). Todavia, ainda assim as pessoas se angustiam esperando modificação de fora para dentro, enquanto deveriam esperar modificação de dentro para fora.

Isso acontece porque geralmente não entendemos, quando muito possuímos um entendimento meramente intelectual, daquela velha e verdadeira história de que o santo não faz o bem para ser santo, ele faz o bem por ser santo. A Bíblia diz que “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt11:34), ou seja, aquilo que você é em seu interior é o que transborda para o exterior, e não o contrário. 

Para os que ainda não entenderam tal conceito, Jesus tem mais algumas palavras: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt23:27).

Notemos que Pedro afirma: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade” (2Pd3:11). Por passagens como essa, muitos depreendem que devem buscar santidade, o que não está de todo errado, até porque a Bíblia diz que sem santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb12:14). A mais pura verdade! Falso é colocar a santidade como anterior a um relacionamento diário com Cristo e como foco principal da vida cristã.


Veja que Pedro, poucas sentenças depois, preocupa-se em encerrar sua epístola com as seguintes palavras: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pd3:18). Nosso esforço, primeira e principalmente, deve concentrar-se nisso, não em santificação. Os únicos que serão achados vivendo “em santo procedimento e piedade” por ocasião da volta de Cristo serão aqueles que estiveram ocupados em relacionar-se com Ele, em conhecê-Lo.

Aliás, Pedro não só se preocupa em encerrar sua epístola com essa ideia que estamos expondo, como também em iniciá-la. Quer ver? Dá uma olhada no  capitulo 1: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (1Pd1:3). Então, como chegamos “à vida e à piedade”? Mais uma vez, “pelo conhecimento completo” de Cristo. E é impossível conhecer alguém sem relacionar-se com esse alguém.


Portanto, biblicamente, não resta dúvida, não é mesmo? Se você quer ser santo, o caminho não é procurar ouvir músicas “santas”, andar com pessoas “santas”, comer coisas “santas”, vestir roupas “santas”. O caminho para a santidade é permanecer no Santo, Jesus Cristo.

Como fazer isso? Já lemos no primeiro texto desta série que I Timóteo 4:4 e 5 afirma que isso se dá pela “Palavra de Deus e pela oração”. O que passar disso vem do Maligno, pois, a Bíblia nunca colocou o alcançar santidade em termos de como você se comporta, mas em termos de com quem você se relaciona, de quem você é amigo (Tg4:4).

Entendo que não seja fácil confiar em minha sanidade mental, mas não é o caso agora. Nunca estive tão lúcida como no momento em que escrevo estas palavras. Embora talvez pareça chocante para alguns, é bom deixarmos mais do que claro que o santo não se preocupa em ser santo. Simplesmente porque essa não é a preocupação dele, essa é a "preocupação" de Deus em relação a ele. O santo se "preocupa" apenas em buscar a Deus, o restante vem como acréscimo. “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt6:33).

Não foi Deus quem prometeu me santificar? Então, Ele que se preocupe com isso. E não é presunção pensar assim, ao contrário, presunção é achar que o Soberano do Universo precisa da minha e da sua ajuda, mesmo quando não a pediu.

"Mas fomos 'chamados para ser santos' (Rm1:7; 1Co1:2)". Sim, chamados para que DEUS nos torne santos, não para que gastemos nossos esforços com algo que só Ele pode fazer.

Temos que aprender a descansar nEle não apenas quanto ao suprimento de bênçãos materiais, mas também quanto às bênçãos espirituais. “E, o meu DEUS, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, CADA UMA de vossas necessidades” (Fp4:19).

Alguns conseguem descansar nEle quanto a saber que Ele não lhes deixará morrer de fome ou quanto à concessão de qualquer outra benção material, mas, incrivelmente, andam ansiosos quanto à concessão de algo no qual nosso Pai está muito mais interessado em mos comceder: nosso sustento espiritual. “Não andeis ansiosos de COISA ALGUMA; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp4:6).

Permanecer nEle e deixar que ELE se preocupe e trabalhe em sua santidade é uma faceta daquela maneira que a Bíblia lhe incita a andar: “lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade [inclusive quanto à sua santidade], porque Ele tem cuidado de vós” (1Pd5:7). Creia nisso e viva!


Leia também os outros textos desta série

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O que é santidade? II

Voltamos com nosso bê-a-bá da santidade. 

No texto anterior desta série, vimos que devemos fugir da ideia de que santidade é algo impossível. Uma vez sabedores disso, fatalmente refletimos: “Deve haver uma maneira de se caracterizar um santo!”

Será que é a vocação pelo estoicismo que faz alguém ser santo? Porque nos é ensinado que se você não se contenta com um sermão raso num culto medíocre, significa que sua vida espiritual não anda lá essas coisas. Quanto mais um culto maçante testa seus nervos, mais santo lhe faz ou indica que você é. Quanto mais humildemente (indigentemente) você se arruma, mais santo você é. Quanto mais gente sem noção você aguenta sem dar nenhuma repreensão; ou - dependendo da escola de santidade em que você esteja inserido - quanto mais você distribui repreensões aos pecadores, mais santo você é.

Apesar da Bíblia não se alinhar à idéia de que santidade é irrelevante, também nunca a definiu em termos de não pecar, ser passivo diante de injustiças ou amar mais a regras do que a seres humanos, como pensam alguns.

Para conseguirmos entender melhor o conceito de santidade, vamos aliá-lo a um conceito não sinônimo, porém próximo e um pouco mais vastamente explorado na Bíblia: o conceito de justiça.

Para fins práticos, pode-se dizer que alguém santo é alguém justo. O santo ou justo é o único que possui verdadeira identidade e senso de valor próprio, pois constrói essas coisas na base mais firme que pode haver: Cristo.

Ele possui uma auto-estima equilibrada não por fé em si mesmo, mas por fé no valor que Deus confere a ele (Dt32:10; Os11:1-9; Jr9:24; Lc12:6-7; Rm7:24). Na verdade, o justo vive em constante desconfiança de si mesmo (Jr17:5 e 9; Fp3:4-7). Sabe que há um monstro dentro de si que só pode ser aplacado pela fé no que Cristo fez na cruz (Rm3:10-18, 7:19). 


O santo sabe ser impossível que algo bom proceda de si mesmo. É alguém que sabe que nasceu totalmente depravado e que todos os seus atos e pensamentos, até os mais insuspeitos, são mesquinhos e egoístas, são pecado se não provém de fé, pois, “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm14:23). Sabe que TUDO o que procede de si mesmo, até mesmo a sua JUSTIÇA é trapo de imundície (Is64:6), pois tudo o que é de fato puro, “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto” (Tg1:17).

O santo é um paradoxo porque, apesar de tudo isso é bem-aventurado. Aliás, o saber de tudo isso o faz ser bem-aventurado, pois ele não precisa mais fingir para si mesmo nem para os outros. Por isso, santo é aquele que adquiriu verdadeira autenticidade e felicidade (Fp4:3-7), porque, apesar de reconhecer toda a sua indignidade, sabe que Deus não está furioso com ele nem pronto a condená-lo (Jo8:11; 12:47; Rm8:1). E para começar a entender esse mistério infinito é imprescindível viver aquilo que Deus diz em Hebreus 10:38: “O meu justo viverá pela fé”.
 

O santo vive a boa e desejável tensão entre a insatisfação consigo mesmo e satisfação de estar em Cristo. A tensão entre o conforto da salvação (Jo14:27) e a inconformação com este mundo (Rm12:2). 

Quanto mais nos aproximamos de Cristo, mas santos nos tornamos (Pv4:18). Isso significa que, à medida que nos aproximamos dEle, mais cônscios seremos de nossas próprias debilidades e fraquezas (Is6:5), bem como mais paz teremos ao saber que estamos no lugar certo: firmando-nos no Único que pode mudar nossa fraqueza em força (2Co12:19), nosso coração de pedra em coração de carne (Ez11:19).

Esses dois últimos textos foram apenas a introdução do quem vem por aí. A coisa ainda vai afunilar um pouco nesse nosso mini-curso de santidade para iniciantes. Até mais.


Leia também os outros textos desta série

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O que é santidade?

No embalo da tal Semana Santa [faz tempo, hein?], fiquei pensando aqui comigo mesma sobre o significado da palavra “santidade” e lembrei-me de algumas histórias. 
        
Minha mãe dizia que, quando adolescente, uma senhora amiga da família sempre lhe perguntava com muito interesse: “Ô, Toinha! Tu és santa? É que estás sempre tão quieta e nunca te vi ir ao banheiro!”.  
       
Dona Dorinha, pessoa simples, do interior, que trabalha aqui em casa há alguns anos, costuma falar que “tem crente que só quer ser santo” e arremata dizendo: “Nunca vi santo comer farinha!”. 

Na cabeça de Dona Dorinha e daquela amiga da minha mãe, santos não se alimentam nem têm necessidades fisiológicas. Creio não precisar dizer que essas duas humildes senhoras utilizaram conceitos medievos e anti-bíblicos do termo “santo”. Infelizmente, não são apenas as pessoas de pouca instrução escolar e/ou bíblica que o fazem. A concepção católica medieval de santidade fez um estrago danado na cristandade em geral!
         
Porém, sejamos justos, ideias biblicamente equivocadas sobre santidade não são apenas culpa da herança católica. A natureza de tais equívocos nos remete à própria natureza humana.
          
Muitos cristãos evangélicos e protestantes riem-se da ingenuidade dos católicos acerca das indulgências e intercessão dos santos no céu, porém, têm crido que santo é alguém impecável, sobre-humano. Baseado em quê chegam a tal conclusão, não faço ideia. Só sei que convenceu a muitos.
        
Alguns vão ao extremo de dizer que santo só Jesus (boa desculpa a fim de sentirem-se à vontade para dar vazão à sua natureza pecaminosa!). Se assim fosse, Jesus seria louco ou mentiroso por querer de nós algo que não podemos alcançar. “Pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: ‘Sede santos, porque eu sou santo’” (1Pd1:16 e 16. Ver também 1Co1:2).
   
Santidade não é algo que os outros, ou que você acha que é; santidade é o que Deus diz que é. Explico... É assim: nesse quesito, só a opinião de Deus importa. Não interessa o quanto outros digam, ou o quanto você se ache, miserável; se você tem buscado a Deus diariamente, você é santo para Deus, “pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado” (1Tm4:4 e 5). Também não importa o quanto outros digam, ou o quanto você se ache, santo; se você não busca a Deus como se sua vida dependesse disso (pois realmente depende), você não é santo.
      
Outro conceito equivocado é o de que a santidade hoje é apenas para alguns, a maioria dos cristãos só a alcançará na glorificação, quando Cristo vier. Todavia, a Bíblia trata a santidade como algo real no dia a dia do cristão: “Já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef2:19). Pois, onde Cristo chega, nada fica como era antes. É impossível que alguém ande com Cristo a cada dia e não seja cada dia mais parecido com Ele (2Co3:18). Santidade é algo para agora.
      
Este texto abre uma pequena série de textos sobre santidade, dentro da nossa série maior sobre conceitos. Provavelmente, eu já mate a expectativa de muitos ao dizer isso, mas é possível que alguns achem os textos desta minissérie óbvios e repetitivos. O que pode até ser um bom sinal, pois, talvez signifique que já conheçam e pratiquem tais princípios.
       
Contudo, peço licença para escrever aos iniciantes no assunto. Para estes é necessária uma exposição um tanto paulatina, a fim de desprogramar a mente de tantas ideias canhestras acerca do tema.
          
Durante muito tempo, mitos sobre santidade têm assolado o cristianismo. Pessoas em todo o mundo têm vacilado ou abandonado a fé por conta deles. Estaria você imune? Bem, sinceramente, eu não teria a petulância de me considerar assim ("Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia". 1Co10:12. Ver também 1Pd5:8).

Convido você a identificar mais alguns mitos sutis sobre santidade e a estar escudado na Palavra a fim de proteger-se deles.


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Figura: Santa Maria Goretti (1890-1902), patrona das vítimas de estupro. Ao sofrer tentativa de violência sexual, preferiu ser morta a ter sua castidade violada.




Este post faz parte da série "A importância dos conceitos". Leia também os outros textos da série.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O que é alma?

Muitos, ao lerem na Bíblia a palavra alma, o fazem com a mente repleta de filosofias para as quais alma significa uma entidade extracorpórea, porém pensante e imortal. Todavia, caso lessem a Bíblia sem essas filosofias sutil e profundamente arraigadas na mente, entenderiam [basta clicar nas passagens para lê-las. Leia mesmo, tive um trabalho danado para pôr link em todas]...

1) Que alma é a união do corpo com o fôlego de vida (Gn 2.7). Quando ambos se uniram na criação, o homem “passou a ser alma”, e não passou a ter uma alma (1Co 15.45). Ou seja, almas são as próprias  pessoas e...
(2) não entidades imortais que saem do corpo e continuam conscientes após a morte. Pois, a alma é mortal (Sl 56.13; 86.13; 116.8; Ez 18.4 e 20; Tg 5.20), visto que Deus é o “único que possui imortalidade” (1Tm 6.16) e é mediante Cristo que podemos chegar a possui-la (2Tm 1.10). Imortalidade não é algo inerente à criatura per se.
(3) Que os mortos não vagam por aí e que nada sabem (Jó 7.9-10; Sl. 6.5; 115.17; 146.4; Ec 9.5-10).
(4) Que esse fôlego de vida que há em nós é o mero sopro de Deus, o qual nada tem de especial: os próprios animais possuem exatamente o mesmo fôlego que o nosso (Ec 3.19-21).
(5) Que a morte é como um sono (Jo 11.11-14; At 7.60; 1Co 11.30; 15.6, 18, 20 e 51; 1Ts 4.13-15) e que é na ressurreição, “naquele dia”, o dia da vinda de Cristo, que a Bíblia deposita toda e qualquer sentença aos homens, toda e qualquer esperança de encontrar-se com Cristo, e não no momento logo após a morte (Jo 5.28-29; Lc 14.14; Jo 11.24-26; 14:1-3; 1Co 15.16-19, 51 e 52; 1Ts 4.13-18; 2Tm 1.12; 4.8).
(6) Que Deus não poderia ser definido como amor caso deixasse bilhões de Suas criaturas queimando por toda a eternidade, todos os dias, o dia todo, ao longo de trilhões e trilhões de anos em agonia sem fim, em virtude de algumas décadas de pecado que elas cometeram neste mundo. Nem eu faria isso! Eu que não presto, deixaria queimar por, no máximo, 999872454 bilhões de anos; a eternidade toda já é demais, né? Isto é o que lhes acontecerá: deixarão de existir (Ml 4.1; 1Ts 1.9-10).

Há ainda outros sentidos para as palavras nephesh (hebraico) e psyché (grego), as quais são traduzidas como alma. Em todas as passagens abaixo, no original bíblico, constam nephesh (se for no Velho Testamento) ou psyché (se for no Novo Testamento) com sentidos um pouco distintos.

Vida (Gn 9.4-5; Lv 17.11-14; 1Re 19.14; Jó 6.11; Mt 11.29; 16.26; Mc 3.4; 8.37; Lc 12.20; 2Co 12.15; Hb 10.39, etc.).
Pessoa (Gn 36.6; 46.15, 18, 22, 25-26; Lv 17.10, 12, 15; Je 52.29-30; Ez 13.18-20; 22.25; Sl 109.20; Pv 11.30; At 2.41; 3.23; 7.14; 27.37).
Coração (Gn 34.3; 1Sm 20.17; 1Re 11.37; At 2.43).

Assim, embora a palavra alma não possua apenas um significado, veja que em absolutamente lugar algum é possível encontrá-la sendo usada como pretendendo significar alguma entidade extracorpórea e pensante, muito menos imortal.

Esta verdade acerca do conceito bíblico de alma é bem expressa no imparcial e recomendável “O Livro das Religiões”, de Jostein Gaarder (mesmo autor de “O Mundo de Sofia”).

“Costuma-se apresentar a alma em contraste com o corpo, e muitas religiões mostram um dualismo (a convicção de que algo é dividido em dois), ensinando que o corpo é temporal, e a alma, divina. Um conceito diz que a alma desce de um mundo superior e passa a habitar um corpo. Aí ela se sente trancada, aprisionada pela matéria, e anseia por retornar a suas origens etéreas.

“Na história que o Antigo Testamento conta, a saber, que Deus criou o homem do barro e soprou a vida em suas narinas, encontramos outro conceito: na antiga tradição judaica, o homem é visto como um todo...”[1].

“Quando se pergunta o que continua vivo, obtêm-se diversas respostas. Em geral, diz-se que é algo chamado de alma, mas em muitas tribos africanas não existe a divisão corpo e alma. Mesmo no cristianismo, a ‘vida eterna’ não é associada a uma ‘alma eterna’. Menciona-se a ‘ressurreição do corpo’, ou, em outras palavras, a reconstituição da pessoa inteira. E verdade que o cristianismo fala num ‘corpo espiritual’, porém isso serve para enfatizar a idéia de que o homem, após a ressurreição, não se tornará um espírito indefinido”[2] (negrito acrescentado).

Apenas para facilitar o entendimento acerca da concepção bíblica de alma, veja alguns exemplos ilustrativos comumente utilizados:

Lâmpada + energia elétrica = luz. Tanto a lâmpada quanto a eletricidade são indispensáveis para formar a luz que está iluminando o quarto em que estou neste momento. Caso eu retire a lâmpada, fico sem luz. Caso eu desligue o interruptor, impedindo que a corrente elétrica chegue até a lâmpada, também fico sem luz.


 O mesmo raciocínio é válido se quisermos ter uma cadeira, por exemplo.

Enfim, da mesma forma, CORPO + FÔLEGO DE VIDA = ALMA VIVENTE. Retire o corpo ou o fôlego de vida e tudo o que você terá será uma alma morta. Nada com volição, raciocínio ou imortalidade. Assim como a luz não é a lâmpada nem a energia elétrica, mas a união de ambas; a alma não é nem o corpo nem o fôlego de vida, mas a união de ambos. Separe-os e a pessoa deixará de existir, tal como a luz deixa de existir quando a lâmpada e a energia elétrica são separadas.


De onde então surgiu o conceito de uma alma imortal?
Embora alguns dos assim chamados Pais da Igreja não acreditassem em uma alma imortal[3], outros deles abertamente abeberaram-se na filosofia grega pagã, e defendiam a idéia de uma alma imortal com base em conceitos filosóficos pagãos, não na Bíblia.

Confira esse fato neste trecho de um Pai da Igreja, o qual usa sem constrangimentos idéias de Platão para falar acerca da natureza da alma:  

“Porque a essência, que é tanto incolor como disforme, e que não pode ser tocada, que realmente existe e é o piloto da alma, e é vista apenas pelo discernimento; e em volta a espécie do verdadeiro conhecimento ocupa este lugar” (Phaedro, p. 247)[4]. 

Embora tais palavras pareçam saídas de alguma entrevista com Caetano Veloso, são de Orígenes (185-244 d.C). Esse tipo de mística influenciou permanentemente o pensamento da cristandade.

A Bíblia nunca associou tais conceitos à ideia de alma, logo, a patrística teve de tomar emprestado conceitos da filosofia grega a fim de formular tais passagens. Não que filósofos devam ser terminantemente rejeitados. O problema é quando a dependência  dos grandes filósofos faz o cristão dobrar conceitos bíblicos ao pensamento filosófico. Acontece muito. Afinal, quem quer estar por fora do que pensam os "grandes"? 

Tal costume persiste não apenas na questão da alma. Ao longo desta série, veremos outros tantos casos de assimilação tácita de conceitos estranhos às Escrituras, no seio do cristianismo. Veja que não se pergunta mais se tal idéia é bíblica (assim, com essa ênfase),  mas quais homens de influência a defendem. Aliás, o não-pensar de modo bíblico, o não-pensar de modo geral acerca do propósito e origem das crenças que defendemos, já se tornou tão banal que nem se pergunta mais nada. Não se reflete. Não se questiona. Apenas se absorve conceitos.

Considerações finais

Agora, toda vez que alguém falar de almas como fantasminhas vagando no Céu ou na Terra, você estará apto para discernir que ela está falando de um conceito de alma completamente estranho ao conceito bíblico. Povos pagãos tinham esse conceito, que foi incorporado ao judaísmo e cristianismo.

Reconhecemos que neste assunto há passagens aparentemente controversas - abordaremos cada uma delas qualquer dia. Contudo, há um princípio de interpretação bíblica muito coerente e universalmente aceito pela cristandade em geral: Um texto deve ser interpretado à luz de outro texto que trate da mesma questão. Quando um texto parecer entrar em choque com outro, não se assombre! Procure outro texto, e mais outro e mais outro sobre o mesmo tema. Apenas após a posse do quadro escriturístico total acerca do assunto, você poderá entender o ensinamento bíblico sobre ele. E notará que nunca haverá contradições nos temas essenciais, que tangem à nossa salvação.

Esse método funciona sempre! Faça o teste! Qualquer dúvida, poderemos conversar sobre.

Espero que você continue nos acompanhando nesta jornada de redescobrimento de alguns conceitos bíblicos. As coisas por aqui só tenderão a melhorar (ou piorar). Isso é uma promessa.






[1] J. GAARDER; V. HELLERN & H. NOTAKER. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p.23.
[2] Idem, p.24.
[3] “A alma não é imortal por natureza, porém pode tornar-se imortal se viver de acordo com a lei de Deus”. New Catholic Encyclopedia, vol.13, p.469, col.1, art. “Soul, Inmortality of”, sobre o pensamento de Irineu, martirizado em 202 ou 203 d.C. Apud, ODOM. Além do conhecido existe vida. 3 ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1995, pág. 119.
[4] Origen. Against celsus. Cap. XIX, ANF, vol. 4, p. 582, col.1. Apud, Idem, pág. 124.