quinta-feira, 27 de maio de 2010

O que é santidade? III

Atente para uma coisa: Buscar santidade pode fazer com que você nunca a alcance!

Há sérios problemas em se buscar santidade. Um deles é que muitos acham que o caminho correto para chegar a ela é o do passar a fazer algumas coisas e deixar de fazer outras. Raciocinam desta maneira: “Tenho que mudar meu comportamento, deixar de fazer isso e aquilo, se quiser ser santo e ir para o céu”.


Atenção: Tal raciocínio só poderá lhe levar a dois caminhos:

1) Frustração, se você não possuir autocontrole para, aparentemente, vencer o pecado.

2) Soberba, se você possuir autocontrole (coisa que até incrédulos podem ter). Caso seja uma pessoa naturalmente auto-determinada, a soberba poderá lhe sobrevir por você conseguir controlar aqueles pecados mais nítidos, enquanto as pessoas menos disciplinadas caem no pecado, à vista de todos.


O caminho da soberba traz consigo a hipocrisia. Você não mais bebe ou adultera, porém, não perdoa seu próximo, costuma falar ou pensar apenas o mal das pessoas, seus próprios interesses são sua prioridade, enxerga-se como melhor, mais sábio, mais santo do que os que não são tão determinados quanto você, orgulha-se por sua santidade, ou outras coisas do gênero. Você continua no pecado. Porém, como se nada estivesse acontecendo, dedica-se àqueles pecados, por assim dizer, menos barulhentos.


Se você baseia seu cristianismo na maneira como você se comporta, mais cedo ou mais tarde enveredará por um desses dois caminhos. É o destino de qualquer pessoa que baseia sua vida no que ela faz, e não no que Cristo fez e faz por ela.

A questão da "soberba cristã" já foi um pouco abordada em Porque não suporto crentes e Onde estão os fariseus do mundo?. Sendo assim, vamos nos deter um pouco na questão da frustração.

Quantas pessoas não abandonam, pensam, ou já pensaram, em abandonar o cristianismo porque, segundo elas, não têm alcançado resultado? Ora, mas que tipo de resultado elas esperam? Nem falo daquelas que esperam casa na praia e carro do ano. Falo das que se frustram porque não têm alcançado “santidade”. Pior que essa santidade é definida e medida segundo o critério humano, não segundo o critério bíblico.

Muitos se indignam com a Teologia da Prosperidade, mas apenas quando ela abrange o campo material. Contudo, devemos também tomar certo cuidado com a tácita Teologia da Prosperidade Espiritual. Obviamente, prosperidade espiritual é um alvo bem mais nobre. E, justamente por isso, muitos caem.

Um dos problemas está em limitar espiritualidade à santidade. Santidade é um fruto da vida espiritual, não a vida espiritual em si. Vida espiritual consiste em conhecer o caráter de Cristo (Os6:3; Jo17:3). A impressão progressiva do caráter de Cristo no nosso (santificação) é o resultado natural de conhecê-Lo.

Assim, santidade faz parte da vida espiritual, mas tão-somente como resultado, como fruto. E tem gente perdendo o tempo e a paz esperando frutos, enquanto deveria preocupar-se em deixar o Espírito Santo regar a semente e cultivar a planta.

Cristo diz: “Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade” (Lc11:39); “Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!” (Mt23:26). Todavia, ainda assim as pessoas se angustiam esperando modificação de fora para dentro, enquanto deveriam esperar modificação de dentro para fora.

Isso acontece porque geralmente não entendemos, quando muito possuímos um entendimento meramente intelectual, daquela velha e verdadeira história de que o santo não faz o bem para ser santo, ele faz o bem por ser santo. A Bíblia diz que “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt11:34), ou seja, aquilo que você é em seu interior é o que transborda para o exterior, e não o contrário. 

Para os que ainda não entenderam tal conceito, Jesus tem mais algumas palavras: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt23:27).

Notemos que Pedro afirma: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade” (2Pd3:11). Por passagens como essa, muitos depreendem que devem buscar santidade, o que não está de todo errado, até porque a Bíblia diz que sem santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb12:14). A mais pura verdade! Falso é colocar a santidade como anterior a um relacionamento diário com Cristo e como foco principal da vida cristã.


Veja que Pedro, poucas sentenças depois, preocupa-se em encerrar sua epístola com as seguintes palavras: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pd3:18). Nosso esforço, primeira e principalmente, deve concentrar-se nisso, não em santificação. Os únicos que serão achados vivendo “em santo procedimento e piedade” por ocasião da volta de Cristo serão aqueles que estiveram ocupados em relacionar-se com Ele, em conhecê-Lo.

Aliás, Pedro não só se preocupa em encerrar sua epístola com essa ideia que estamos expondo, como também em iniciá-la. Quer ver? Dá uma olhada no  capitulo 1: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (1Pd1:3). Então, como chegamos “à vida e à piedade”? Mais uma vez, “pelo conhecimento completo” de Cristo. E é impossível conhecer alguém sem relacionar-se com esse alguém.


Portanto, biblicamente, não resta dúvida, não é mesmo? Se você quer ser santo, o caminho não é procurar ouvir músicas “santas”, andar com pessoas “santas”, comer coisas “santas”, vestir roupas “santas”. O caminho para a santidade é permanecer no Santo, Jesus Cristo.

Como fazer isso? Já lemos no primeiro texto desta série que I Timóteo 4:4 e 5 afirma que isso se dá pela “Palavra de Deus e pela oração”. O que passar disso vem do Maligno, pois, a Bíblia nunca colocou o alcançar santidade em termos de como você se comporta, mas em termos de com quem você se relaciona, de quem você é amigo (Tg4:4).

Entendo que não seja fácil confiar em minha sanidade mental, mas não é o caso agora. Nunca estive tão lúcida como no momento em que escrevo estas palavras. Embora talvez pareça chocante para alguns, é bom deixarmos mais do que claro que o santo não se preocupa em ser santo. Simplesmente porque essa não é a preocupação dele, essa é a "preocupação" de Deus em relação a ele. O santo se "preocupa" apenas em buscar a Deus, o restante vem como acréscimo. “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt6:33).

Não foi Deus quem prometeu me santificar? Então, Ele que se preocupe com isso. E não é presunção pensar assim, ao contrário, presunção é achar que o Soberano do Universo precisa da minha e da sua ajuda, mesmo quando não a pediu.

"Mas fomos 'chamados para ser santos' (Rm1:7; 1Co1:2)". Sim, chamados para que DEUS nos torne santos, não para que gastemos nossos esforços com algo que só Ele pode fazer.

Temos que aprender a descansar nEle não apenas quanto ao suprimento de bênçãos materiais, mas também quanto às bênçãos espirituais. “E, o meu DEUS, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, CADA UMA de vossas necessidades” (Fp4:19).

Alguns conseguem descansar nEle quanto a saber que Ele não lhes deixará morrer de fome ou quanto à concessão de qualquer outra benção material, mas, incrivelmente, andam ansiosos quanto à concessão de algo no qual nosso Pai está muito mais interessado em mos comceder: nosso sustento espiritual. “Não andeis ansiosos de COISA ALGUMA; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp4:6).

Permanecer nEle e deixar que ELE se preocupe e trabalhe em sua santidade é uma faceta daquela maneira que a Bíblia lhe incita a andar: “lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade [inclusive quanto à sua santidade], porque Ele tem cuidado de vós” (1Pd5:7). Creia nisso e viva!


Leia também os outros textos desta série

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O que é santidade? II

Voltamos com nosso bê-a-bá da santidade. 

No texto anterior desta série, vimos que devemos fugir da ideia de que santidade é algo impossível. Uma vez sabedores disso, fatalmente refletimos: “Deve haver uma maneira de se caracterizar um santo!”

Será que é a vocação pelo estoicismo que faz alguém ser santo? Porque nos é ensinado que se você não se contenta com um sermão raso num culto medíocre, significa que sua vida espiritual não anda lá essas coisas. Quanto mais um culto maçante testa seus nervos, mais santo lhe faz ou indica que você é. Quanto mais humildemente (indigentemente) você se arruma, mais santo você é. Quanto mais gente sem noção você aguenta sem dar nenhuma repreensão; ou - dependendo da escola de santidade em que você esteja inserido - quanto mais você distribui repreensões aos pecadores, mais santo você é.

Apesar da Bíblia não se alinhar à idéia de que santidade é irrelevante, também nunca a definiu em termos de não pecar, ser passivo diante de injustiças ou amar mais a regras do que a seres humanos, como pensam alguns.

Para conseguirmos entender melhor o conceito de santidade, vamos aliá-lo a um conceito não sinônimo, porém próximo e um pouco mais vastamente explorado na Bíblia: o conceito de justiça.

Para fins práticos, pode-se dizer que alguém santo é alguém justo. O santo ou justo é o único que possui verdadeira identidade e senso de valor próprio, pois constrói essas coisas na base mais firme que pode haver: Cristo.

Ele possui uma auto-estima equilibrada não por fé em si mesmo, mas por fé no valor que Deus confere a ele (Dt32:10; Os11:1-9; Jr9:24; Lc12:6-7; Rm7:24). Na verdade, o justo vive em constante desconfiança de si mesmo (Jr17:5 e 9; Fp3:4-7). Sabe que há um monstro dentro de si que só pode ser aplacado pela fé no que Cristo fez na cruz (Rm3:10-18, 7:19). 


O santo sabe ser impossível que algo bom proceda de si mesmo. É alguém que sabe que nasceu totalmente depravado e que todos os seus atos e pensamentos, até os mais insuspeitos, são mesquinhos e egoístas, são pecado se não provém de fé, pois, “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm14:23). Sabe que TUDO o que procede de si mesmo, até mesmo a sua JUSTIÇA é trapo de imundície (Is64:6), pois tudo o que é de fato puro, “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto” (Tg1:17).

O santo é um paradoxo porque, apesar de tudo isso é bem-aventurado. Aliás, o saber de tudo isso o faz ser bem-aventurado, pois ele não precisa mais fingir para si mesmo nem para os outros. Por isso, santo é aquele que adquiriu verdadeira autenticidade e felicidade (Fp4:3-7), porque, apesar de reconhecer toda a sua indignidade, sabe que Deus não está furioso com ele nem pronto a condená-lo (Jo8:11; 12:47; Rm8:1). E para começar a entender esse mistério infinito é imprescindível viver aquilo que Deus diz em Hebreus 10:38: “O meu justo viverá pela fé”.
 

O santo vive a boa e desejável tensão entre a insatisfação consigo mesmo e satisfação de estar em Cristo. A tensão entre o conforto da salvação (Jo14:27) e a inconformação com este mundo (Rm12:2). 

Quanto mais nos aproximamos de Cristo, mas santos nos tornamos (Pv4:18). Isso significa que, à medida que nos aproximamos dEle, mais cônscios seremos de nossas próprias debilidades e fraquezas (Is6:5), bem como mais paz teremos ao saber que estamos no lugar certo: firmando-nos no Único que pode mudar nossa fraqueza em força (2Co12:19), nosso coração de pedra em coração de carne (Ez11:19).

Esses dois últimos textos foram apenas a introdução do quem vem por aí. A coisa ainda vai afunilar um pouco nesse nosso mini-curso de santidade para iniciantes. Até mais.


Leia também os outros textos desta série

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O que é santidade?

No embalo da tal Semana Santa [faz tempo, hein?], fiquei pensando aqui comigo mesma sobre o significado da palavra “santidade” e lembrei-me de algumas histórias. 
        
Minha mãe dizia que, quando adolescente, uma senhora amiga da família sempre lhe perguntava com muito interesse: “Ô, Toinha! Tu és santa? É que estás sempre tão quieta e nunca te vi ir ao banheiro!”.  
       
Dona Dorinha, pessoa simples, do interior, que trabalha aqui em casa há alguns anos, costuma falar que “tem crente que só quer ser santo” e arremata dizendo: “Nunca vi santo comer farinha!”. 

Na cabeça de Dona Dorinha e daquela amiga da minha mãe, santos não se alimentam nem têm necessidades fisiológicas. Creio não precisar dizer que essas duas humildes senhoras utilizaram conceitos medievos e anti-bíblicos do termo “santo”. Infelizmente, não são apenas as pessoas de pouca instrução escolar e/ou bíblica que o fazem. A concepção católica medieval de santidade fez um estrago danado na cristandade em geral!
         
Porém, sejamos justos, ideias biblicamente equivocadas sobre santidade não são apenas culpa da herança católica. A natureza de tais equívocos nos remete à própria natureza humana.
          
Muitos cristãos evangélicos e protestantes riem-se da ingenuidade dos católicos acerca das indulgências e intercessão dos santos no céu, porém, têm crido que santo é alguém impecável, sobre-humano. Baseado em quê chegam a tal conclusão, não faço ideia. Só sei que convenceu a muitos.
        
Alguns vão ao extremo de dizer que santo só Jesus (boa desculpa a fim de sentirem-se à vontade para dar vazão à sua natureza pecaminosa!). Se assim fosse, Jesus seria louco ou mentiroso por querer de nós algo que não podemos alcançar. “Pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: ‘Sede santos, porque eu sou santo’” (1Pd1:16 e 16. Ver também 1Co1:2).
   
Santidade não é algo que os outros, ou que você acha que é; santidade é o que Deus diz que é. Explico... É assim: nesse quesito, só a opinião de Deus importa. Não interessa o quanto outros digam, ou o quanto você se ache, miserável; se você tem buscado a Deus diariamente, você é santo para Deus, “pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado” (1Tm4:4 e 5). Também não importa o quanto outros digam, ou o quanto você se ache, santo; se você não busca a Deus como se sua vida dependesse disso (pois realmente depende), você não é santo.
      
Outro conceito equivocado é o de que a santidade hoje é apenas para alguns, a maioria dos cristãos só a alcançará na glorificação, quando Cristo vier. Todavia, a Bíblia trata a santidade como algo real no dia a dia do cristão: “Já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef2:19). Pois, onde Cristo chega, nada fica como era antes. É impossível que alguém ande com Cristo a cada dia e não seja cada dia mais parecido com Ele (2Co3:18). Santidade é algo para agora.
      
Este texto abre uma pequena série de textos sobre santidade, dentro da nossa série maior sobre conceitos. Provavelmente, eu já mate a expectativa de muitos ao dizer isso, mas é possível que alguns achem os textos desta minissérie óbvios e repetitivos. O que pode até ser um bom sinal, pois, talvez signifique que já conheçam e pratiquem tais princípios.
       
Contudo, peço licença para escrever aos iniciantes no assunto. Para estes é necessária uma exposição um tanto paulatina, a fim de desprogramar a mente de tantas ideias canhestras acerca do tema.
          
Durante muito tempo, mitos sobre santidade têm assolado o cristianismo. Pessoas em todo o mundo têm vacilado ou abandonado a fé por conta deles. Estaria você imune? Bem, sinceramente, eu não teria a petulância de me considerar assim ("Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia". 1Co10:12. Ver também 1Pd5:8).

Convido você a identificar mais alguns mitos sutis sobre santidade e a estar escudado na Palavra a fim de proteger-se deles.


---------------
Figura: Santa Maria Goretti (1890-1902), patrona das vítimas de estupro. Ao sofrer tentativa de violência sexual, preferiu ser morta a ter sua castidade violada.




Este post faz parte da série "A importância dos conceitos". Leia também os outros textos da série.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O que é alma?

Muitos, ao lerem na Bíblia a palavra alma, o fazem com a mente repleta de filosofias para as quais alma significa uma entidade extracorpórea, porém pensante e imortal. Todavia, caso lessem a Bíblia sem essas filosofias sutil e profundamente arraigadas na mente, entenderiam [basta clicar nas passagens para lê-las. Leia mesmo, tive um trabalho danado para pôr link em todas]...

1) Que alma é a união do corpo com o fôlego de vida (Gn 2.7). Quando ambos se uniram na criação, o homem “passou a ser alma”, e não passou a ter uma alma (1Co 15.45). Ou seja, almas são as próprias  pessoas e...
(2) não entidades imortais que saem do corpo e continuam conscientes após a morte. Pois, a alma é mortal (Sl 56.13; 86.13; 116.8; Ez 18.4 e 20; Tg 5.20), visto que Deus é o “único que possui imortalidade” (1Tm 6.16) e é mediante Cristo que podemos chegar a possui-la (2Tm 1.10). Imortalidade não é algo inerente à criatura per se.
(3) Que os mortos não vagam por aí e que nada sabem (Jó 7.9-10; Sl. 6.5; 115.17; 146.4; Ec 9.5-10).
(4) Que esse fôlego de vida que há em nós é o mero sopro de Deus, o qual nada tem de especial: os próprios animais possuem exatamente o mesmo fôlego que o nosso (Ec 3.19-21).
(5) Que a morte é como um sono (Jo 11.11-14; At 7.60; 1Co 11.30; 15.6, 18, 20 e 51; 1Ts 4.13-15) e que é na ressurreição, “naquele dia”, o dia da vinda de Cristo, que a Bíblia deposita toda e qualquer sentença aos homens, toda e qualquer esperança de encontrar-se com Cristo, e não no momento logo após a morte (Jo 5.28-29; Lc 14.14; Jo 11.24-26; 14:1-3; 1Co 15.16-19, 51 e 52; 1Ts 4.13-18; 2Tm 1.12; 4.8).
(6) Que Deus não poderia ser definido como amor caso deixasse bilhões de Suas criaturas queimando por toda a eternidade, todos os dias, o dia todo, ao longo de trilhões e trilhões de anos em agonia sem fim, em virtude de algumas décadas de pecado que elas cometeram neste mundo. Nem eu faria isso! Eu que não presto, deixaria queimar por, no máximo, 999872454 bilhões de anos; a eternidade toda já é demais, né? Isto é o que lhes acontecerá: deixarão de existir (Ml 4.1; 1Ts 1.9-10).

Há ainda outros sentidos para as palavras nephesh (hebraico) e psyché (grego), as quais são traduzidas como alma. Em todas as passagens abaixo, no original bíblico, constam nephesh (se for no Velho Testamento) ou psyché (se for no Novo Testamento) com sentidos um pouco distintos.

Vida (Gn 9.4-5; Lv 17.11-14; 1Re 19.14; Jó 6.11; Mt 11.29; 16.26; Mc 3.4; 8.37; Lc 12.20; 2Co 12.15; Hb 10.39, etc.).
Pessoa (Gn 36.6; 46.15, 18, 22, 25-26; Lv 17.10, 12, 15; Je 52.29-30; Ez 13.18-20; 22.25; Sl 109.20; Pv 11.30; At 2.41; 3.23; 7.14; 27.37).
Coração (Gn 34.3; 1Sm 20.17; 1Re 11.37; At 2.43).

Assim, embora a palavra alma não possua apenas um significado, veja que em absolutamente lugar algum é possível encontrá-la sendo usada como pretendendo significar alguma entidade extracorpórea e pensante, muito menos imortal.

Esta verdade acerca do conceito bíblico de alma é bem expressa no imparcial e recomendável “O Livro das Religiões”, de Jostein Gaarder (mesmo autor de “O Mundo de Sofia”).

“Costuma-se apresentar a alma em contraste com o corpo, e muitas religiões mostram um dualismo (a convicção de que algo é dividido em dois), ensinando que o corpo é temporal, e a alma, divina. Um conceito diz que a alma desce de um mundo superior e passa a habitar um corpo. Aí ela se sente trancada, aprisionada pela matéria, e anseia por retornar a suas origens etéreas.

“Na história que o Antigo Testamento conta, a saber, que Deus criou o homem do barro e soprou a vida em suas narinas, encontramos outro conceito: na antiga tradição judaica, o homem é visto como um todo...”[1].

“Quando se pergunta o que continua vivo, obtêm-se diversas respostas. Em geral, diz-se que é algo chamado de alma, mas em muitas tribos africanas não existe a divisão corpo e alma. Mesmo no cristianismo, a ‘vida eterna’ não é associada a uma ‘alma eterna’. Menciona-se a ‘ressurreição do corpo’, ou, em outras palavras, a reconstituição da pessoa inteira. E verdade que o cristianismo fala num ‘corpo espiritual’, porém isso serve para enfatizar a idéia de que o homem, após a ressurreição, não se tornará um espírito indefinido”[2] (negrito acrescentado).

Apenas para facilitar o entendimento acerca da concepção bíblica de alma, veja alguns exemplos ilustrativos comumente utilizados:

Lâmpada + energia elétrica = luz. Tanto a lâmpada quanto a eletricidade são indispensáveis para formar a luz que está iluminando o quarto em que estou neste momento. Caso eu retire a lâmpada, fico sem luz. Caso eu desligue o interruptor, impedindo que a corrente elétrica chegue até a lâmpada, também fico sem luz.


 O mesmo raciocínio é válido se quisermos ter uma cadeira, por exemplo.

Enfim, da mesma forma, CORPO + FÔLEGO DE VIDA = ALMA VIVENTE. Retire o corpo ou o fôlego de vida e tudo o que você terá será uma alma morta. Nada com volição, raciocínio ou imortalidade. Assim como a luz não é a lâmpada nem a energia elétrica, mas a união de ambas; a alma não é nem o corpo nem o fôlego de vida, mas a união de ambos. Separe-os e a pessoa deixará de existir, tal como a luz deixa de existir quando a lâmpada e a energia elétrica são separadas.


De onde então surgiu o conceito de uma alma imortal?
Embora alguns dos assim chamados Pais da Igreja não acreditassem em uma alma imortal[3], outros deles abertamente abeberaram-se na filosofia grega pagã, e defendiam a idéia de uma alma imortal com base em conceitos filosóficos pagãos, não na Bíblia.

Confira esse fato neste trecho de um Pai da Igreja, o qual usa sem constrangimentos idéias de Platão para falar acerca da natureza da alma:  

“Porque a essência, que é tanto incolor como disforme, e que não pode ser tocada, que realmente existe e é o piloto da alma, e é vista apenas pelo discernimento; e em volta a espécie do verdadeiro conhecimento ocupa este lugar” (Phaedro, p. 247)[4]. 

Embora tais palavras pareçam saídas de alguma entrevista com Caetano Veloso, são de Orígenes (185-244 d.C). Esse tipo de mística influenciou permanentemente o pensamento da cristandade.

A Bíblia nunca associou tais conceitos à ideia de alma, logo, a patrística teve de tomar emprestado conceitos da filosofia grega a fim de formular tais passagens. Não que filósofos devam ser terminantemente rejeitados. O problema é quando a dependência  dos grandes filósofos faz o cristão dobrar conceitos bíblicos ao pensamento filosófico. Acontece muito. Afinal, quem quer estar por fora do que pensam os "grandes"? 

Tal costume persiste não apenas na questão da alma. Ao longo desta série, veremos outros tantos casos de assimilação tácita de conceitos estranhos às Escrituras, no seio do cristianismo. Veja que não se pergunta mais se tal idéia é bíblica (assim, com essa ênfase),  mas quais homens de influência a defendem. Aliás, o não-pensar de modo bíblico, o não-pensar de modo geral acerca do propósito e origem das crenças que defendemos, já se tornou tão banal que nem se pergunta mais nada. Não se reflete. Não se questiona. Apenas se absorve conceitos.

Considerações finais

Agora, toda vez que alguém falar de almas como fantasminhas vagando no Céu ou na Terra, você estará apto para discernir que ela está falando de um conceito de alma completamente estranho ao conceito bíblico. Povos pagãos tinham esse conceito, que foi incorporado ao judaísmo e cristianismo.

Reconhecemos que neste assunto há passagens aparentemente controversas - abordaremos cada uma delas qualquer dia. Contudo, há um princípio de interpretação bíblica muito coerente e universalmente aceito pela cristandade em geral: Um texto deve ser interpretado à luz de outro texto que trate da mesma questão. Quando um texto parecer entrar em choque com outro, não se assombre! Procure outro texto, e mais outro e mais outro sobre o mesmo tema. Apenas após a posse do quadro escriturístico total acerca do assunto, você poderá entender o ensinamento bíblico sobre ele. E notará que nunca haverá contradições nos temas essenciais, que tangem à nossa salvação.

Esse método funciona sempre! Faça o teste! Qualquer dúvida, poderemos conversar sobre.

Espero que você continue nos acompanhando nesta jornada de redescobrimento de alguns conceitos bíblicos. As coisas por aqui só tenderão a melhorar (ou piorar). Isso é uma promessa.






[1] J. GAARDER; V. HELLERN & H. NOTAKER. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p.23.
[2] Idem, p.24.
[3] “A alma não é imortal por natureza, porém pode tornar-se imortal se viver de acordo com a lei de Deus”. New Catholic Encyclopedia, vol.13, p.469, col.1, art. “Soul, Inmortality of”, sobre o pensamento de Irineu, martirizado em 202 ou 203 d.C. Apud, ODOM. Além do conhecido existe vida. 3 ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1995, pág. 119.
[4] Origen. Against celsus. Cap. XIX, ANF, vol. 4, p. 582, col.1. Apud, Idem, pág. 124.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A negligenciada importância dos conceitos


“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

“Cabral descobriu o Brasil coisa nenhuma. Isso é invenção de Portugal. E os espanhóis que chegaram aqui antes dele? E os índios que aqui já habitavam?”. Escutei muito essa frase. Às vezes, a pessoa que fala isso se sente a descolada, né? por contrariar a informação popular vigente. Contudo, ela ignora que, em séculos passados, um conceito comum da palavra “descobrimento” não era o de meramente conhecer algo até então desconhecido de todos, mas, abrangia também o conceito de "tomar posse"[1]. Então, Cabral descobriu o Brasil? Sim e não. Depende do conceito de descobrimento a que você se refere. É de imprescindível importância entender o conceito das palavras dentro do contexto em que estão inseridas, e não aplicar arbitrariamente, às palavras de outrem, nossa própria forma de utilizá-las.

Os conceitos das palavras nem sempre são os mesmos. Não estou falando de relativismo, e sim que nem sempre nossa mente, nosso tempo, nossa família, nossas tradições ou nossa cultura conseguem conferir a palavras e expressões que lemos ou ouvimos o mesmo significado que o autor tinha em mente quando as empregou. Extrair do texto, de forma mais incontaminada possível, o que o autor quis dizer é o trabalho de todo bom exegeta.

Fomos criados de formas diferentes, em locais diferentes, por pessoas diferentes, passamos por experiências de vida diferentes. Cada um desses fatores contribuem para que cada ser humano confira significados particulares àquilo que é dito. Em quantas ocasiões não ficamos magoados ou irritados com palavras alheias, quando às vezes bastava uma simples pergunta: “Espera ai, ao dizer isso, você está querendo dizer isso e aquilo outro?”. Se tivéssemos sempre a sobriedade de, a despeito de nossos conceitos a priori, perguntar a pessoa qual significado ela confere àquelas palavras que disse, evitaríamos muitos mal-entendidos. 

Obviamente, com textos antigos, e a Bíblia principalmente, devemos ter um cuidado ainda mais especial nesse aspecto. É nosso dever fazer sempre a pergunta: “O que a Bíblia quer dizer quando emprega tal palavra ou expressão?”, para assim não corrermos o risco de contaminar os conceitos bíblicos com conceitos de nossa sociedade, ou nossos conceitos particulares, por vezes construídos com base em tradições estranhas às  Escrituras. Negligenciar tão simples e crucial pergunta tem trazido sérios danos e dissensões ao cristianismo, desde muito tempo. Muitos se digladiam enquanto que, se procurassem na Bíblia a definição dos conceitos que ela mesma trás, já se esclareceria muita coisa.

E, nem se preocupe que a Bíblia fornece mesmo a definição para os conceitos que ela usa. Algumas vezes, a definição está bem na cara; outras vezes, nem tanto; mas sempre estará lá. Se não estiver, significa que Deus não julgou importante definir ou revelar aquilo, então, não seremos nós que devemos ter a petulância de nos atrever a inventar definições e revelações que o texto bíblico não trás. Infelizmente, é isso o que muitos descrentes e crentes têm feito ao ler as Escrituras: imprimir suas próprias definições, manchadas por filosofias extra ou anti-bíblicas, para tratar de conceitos bíblicos. ESTÁ ERRADO! Errado do início ao fim!

Se há algo em que cristãos sérios acreditam veementemente é no Sola Scriptura e no fato de que a Bíblia é sua própria intérprete. Muitos chegaram a ser mortos por isso. Então, minha gente, não desprezemos o sangue derramado de tantos santos mártires. Comparemos um texto a outro texto, um preceito a outro preceito (Is28:13); deixemos que a Bíblia interprete a si mesma. 

Ainda que você não seja cristão, considere que é um desrespeito à ética e ao bom senso ignorar a forma que um autor - qualquer que seja ele - costuma empregar algum termo ou expressão. Não buscar no que o próprio autor escreveu, em seu contexto histórico e cultural, a chave para desvendar o que ele quer dizer, não pode ser uma forma segura, racional e honesta de entendê-lo. Pessoas sinceras, sejam crentes ou descrentes, devem ter tudo isso em alta consideração ao ler um texto.

Este post abre uma série com temas nos quais, compreender a forma que a Bíblia emprega determinadas palavras é de fundamental importância no entendimento de vários assuntos, tais como: Biblicamente, o que é “alma”, “espírito” e “inferno”? Biblicamente, o que é ser “santo”? Biblicamente, o que é “mundano”? Biblicamente, o que é ser “filho de Deus”? Biblicamente, o que é ser “perfeito”? Biblicamente, o que é “fogo estranho”? Biblicamente, o que é ser “trevas”? Biblicamente, o que é ser “incrédulo”? Etc. São temas que têm divido cristãos no mundo inteiro há gerações, então, não espero solucionar cada uma destas disputas milenares num post de blog, mas espero contribuir com o debate e com o conceito que é a tônica deste blog: Sejamos bíblicos.

“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl.2:8). Cuidado. Também cuidado para que você não seja o auxiliar do enredador, perpetuando como bíblicos, conceitos que estão em qualquer lugar do mundo, exceto na Bíblia.


Aguardem a sequência, kids!

[1]Exploradores como Vicente Pinzón e Américo Vespúcio passaram pelo Brasil antes de Cabral, porém, não tomaram posse deste solo, por pertencerem a Portugal todas as terras, “descobertas ou por descobrir”, localizadas no lado oriental do meridiano situado a 370 léguas a oeste de Cabo Verde; conforme especificava o Tratado de Tordesilhas. Para maiores informações: KANTOR, Íris. Usos diplomáticos da ilha-Brasil: polêmicas cartográficas e historiográficas. Disponível na Internet em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v23n37/v23n37a05.pdf. Último acesso em 26 de fevereiro de 2010.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Onde estão todos fariseus?


Às favas com a falsa modéstia. Sou inteligente, criativa, fiel, divertida e...um poço fétido de orgulho.

Até agora refletindo no texto anterior, concluo que, na verdade, não suporto a mim mesma, com minhas formas requintadas (e requentadas) de farisaísmo. Aliás, ô palavrinha desgastada! Incrível como todos conhecemos vários, mas ninguém nunca encontra um único que se assuma como tal, não é? Onde estão todos os fariseus do mundo, afinal? Têm de estar em algum lugar, gente! Já sei! Estão nos outros! E os seus fariseus, caro leitor; óbvio, estão nos outros. E os fariseus dos outros, óbvio, estão em mim e em você. O inferno será sempre os outros.

Talvez eu esteja cometendo suicídio social, mas, ok, confesso: aqui está uma fariséia (aliás, essa palavra soa mais feiamente no feminino!). Eu não fui, eu sou uma fariséia. Não me orgulho disso, mas reconheço o que sou para que, enfim, possa deixar de ser. 

Dói ter que dizer estas coisas de mim mesma a mim mesma. Fere meu orgulho. Mas confesso tudo, ponho as cartas na mesa para mostrar que trapaceei. Para que Cristo possa mudar essa miséria que há em mim. 

Também me deixa triste e estupefata pensar que boa parte das pessoas que lerão este texto se farão de sonsas e aplicarão estas palavras a qualquer um, menos a si próprias. E apenas uma minoria delas pode fazê-lo sem hipocrisia (digo isso para ser bondosa. Tenho sérias desconfianças de que ninguém pode fazê-lo sem ser hipócrita). Embora o farasaísmo não seja uma constante numa vida transformada, provavelmente tenhamos de lutar contra isso, pela fé, até a certa e aguardada intervenção messiânica na história deste mundo.

Prometo tentar parar com os posts auto-depreciativos. Acho que este é o último, por enquanto. Mas preciso dizer que estou com medo de mim mesma. Neste instante, descortina-se diante de mim faces do meu orgulho que nunca conheci, ou conheci e varri para debaixo do tapete. Senhor Jesus, salva-me! O fariseu sou eu.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Porque não suporto crentes

Há uma raça de gente que particularmente me enoja. Os crentes. Crentes são criaturinhas que julgam ser mais justas e sábias do que o restante da humanidade. Que acham que questionar é ser incrédulo. Que são faltos de misericórdia para com os que erram. Que desprezam os que não creem, e também os que creem, pensam, vestem-se ou falam de forma diferente da deles.

Até aí tudo bem. Arrogância, irracionalidade, espírito condenatório, desamor e intolerância não são “privilégios” do mundo crente. Todo o problema está nos crentes serem arrogantes, irracionais, condenadores, desamorosos e intolerantes por serem crentes.

Obviamente, você percebeu que não posso estar falando de todos os crentes. Falo do estereótipo tão comum de crente que tem apinhado o mundo com seu simplismo. Contentam-se com todo tipo de explicação ridícula que recebem de seus líderes ou de sua própria mente adestrada para satisfazer-se com a mediocridade intelectual. O pior nem é contentar-se com qualquer coisa, é contentar-se com qualquer coisa e achar que todos devem contentar-se também, senão a pessoa não é espiritual,  preocupa-se com questiúnculas, ou coisa do gênero; afinal, "sem fé é impossível agradar a Deus". Caro, colega, por favor, "va a fa napoli"! Aprende o que é fé na Bíblia, bem como o significado de Romanos 12:1, e não enfraquece a amizade, ok? Beijos.

Também me refiro aos crentes que creem na auto-flagelação como caminho para a salvação. Daí, esforçam-se terminantemente a não ver, não ouvir, não usar,  não falar,  não comer e não vestir qualquer coisa que lhes dê prazer, lhes deixe mais bonitos ou mais próximo das pessoas, não importa se os princípios para tais restrições estejam ou não no Livro que deveria ser sua única regra de fé e prática. Mais uma vez, o pior não é fazer, é o desprezo com que olham os que não fazem.

Refiro-me ainda aos crentes que usam de total falta de sabedoria e tato ao lidar com os outros e acham que isso é pregar o evangelho com intrepidez. Não, isso é ser um imbecil. Pregar o evangelho com intrepidez é, entre outras coisas, colocar-se firmemente ao lado do que você acredita a despeito de vaias ou aplausos. A ironia é que pessoas pensam ser mais cristãs justamente quando são mais parecidas com o diabo. Ser ríspido, condenador e intolerante são alguns dos comportamentos mais grotescos e opostos ao caráter de Cristo que podem existir.
...
Devo dizer que o rumo desde post sofreu uma brusca e violenta guinada enquanto o escrevia. Tão brusca e violenta que esmigalhou esta minha caixa craniana repleta de dejetos.

Droga! Não gosto quando a Bíblia diz coisas como: "Devemos suportar uns aos outros" (Ef4:2) e blábláblá, justamente por isso; sempre sobra pra mim. Sinto frustrar suas expectativas se você achou que este texto ia terminar por malhar bem malhado os malhadores. Compartilho de vossa frustração. Porém, é... vou ter que ir aonde este post está me levando, e, confesso, estou odiando a idéia! Mas, vamos lá...

A verdade é que há uma classe de cristãos hipócritas condenadores que não valem seus conteúdos estomacais. Outra verdade é que há outra classe de cristãos que há muito abandonaram tais práticas primitivas e encontram-se em outro nível, num estágio bem mais elevado: condenar os condenadores. Estes últimos, porém, valem tanto quanto os primeiros.

Condenar os condenadores é muito mais cool! Como todos não pensaram nisso antes? Calma aí, nem todos podem ter esse insight de saltar para um patamar mais sofisticado de condenação! É imprescindível que haja condenadores nas castas inferiores alimentando as castas superiores, do contrário os condenadores de condenadores viveriam de quê?

Crentes são pessoas que abandonaram tudo por causa de Cristo, sua única diversão é condenar pecadores. E os crentes condenadores de condenadores, então? Abandonaram tudo, até mesmo o condenar, a partir daí, passam a dedicar-se a um caminho sobremodo excelente. Porque, né? condenar condenadores não é uma condenação de verdade. "Até Cristo xingou  condenadores!" (Jargão aliviador de consciência dos que se deleitam em nutrir sua natureza carnal).

Como se não bastasse o fato de que a forma de Cristo tratar os fariseus nada tem a ver com aquilo que a maioria de nós suspeita (Duvida? Post sobre isso em breve). A questão é que enquanto olhamos para o quanto os outros estão distantes de Cristo, distancia-mo-nos dEle ainda mais. Enquanto nossa contemplação não for TODA de Cristo, não seremos muito melhores do que aqueles a quem Ele denominou de “sepulcros caiados”. Todos nós o somos. Somente a graça de Cristo para nos livrar desta condição.

É o velho -- Fariseu: “Oh, Pai, graças te dou porque não sou como este publicano...”. Cristão moderno: “Fariseu hipócrita filha-da-mãe! Oh, Pai, graças te dou porque não sou como este fariseu”. E, se eu mesma não tiver cuidado, neste exato momento, enquanto escrevo este texto, posso cair no “graças te dou porque não sou como este cristão moderno”. É o ser humano infinitamente encontrando formas de exaltação pessoal. Algumas sutis, outras nem tanto; ambas igualmente odiosas aos olhos de Cristo.

Podemos ter um vislumbre dessa nossa cafajestagem ao olharmos para a repercussão do episódio em que o jornalista Boris Casoy teve um comentário idiota e preconceituoso sobre garis, acidentalmente transmitido em rede nacional. Rapidamente, apareceram algozes de todos os lados para apedrejar o apedrejador. Neste carnaval (em todos os sentidos), o jornalista Chico Pinheiro acaba de mandar uma bela (in)direta para Boris. Nem sei se isso está dentro da ética profissional. Nem sei se Chico Pinheiro ficou de fato indignado com o comentário de Boris, ou apenas se aproveitou do azar do colega para posar de santo, já que não foi ele o flagrado. Não sei, só sei que mudar o objeto de condenação não torna um condenador melhor do que outro. Mudam-se as vítimas e os criminosos; o crime é o mesmo. Vamos todos "odiar essas pessoas que não têm amor", e a hipocrisia e a incoerência certamente nos seguirão todos os dias de nossa vida.

Mas, não me entenda mal. Não quero dizer que devamos nos tornar seres insensíveis, não nos indignando com o farisaísmo alheio. Cristo não diz que devemos deixar o cisco no olho de nosso irmão, Ele diz que devemos tirá-lo, sim, mas após um auto-exame. ("Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão" - Mt7:5). Apenas chamo atenção para a crassa incoerência que muitas vezes cometemos no processo.

Quanto a mim continuo não suportando crentes. Não retiro nenhuma das verdades que disse acerca deles. Não! Continuo considerando-as importantes e dignas de serem ditas, embora não me considere mais a pessoa mais digna de dizê-las. Peço a Cristo que me ajude a fazer isso da maneira correta, pelo motivo correto, como Ele faz: não por alguma forma velada de auto-exaltação, não trocando seis por meia dúzia, mas por amor ao próprio condenador. E, pela graça de Cristo, que eu não seja achada neste momento entre eles, com meus discursosinhos por vezes demagógicos e baratos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Haja imBRÓGlio!

Car@s leitores,

Dei-me ao trabalho de escrever este post apenas para comunicar o nascimento de um ser de longa e movimentada gestação.

Em 2006, criei meu primeiro blog. Em virtude de minha preguiça colossal e mania de protelação crônica, jamais escrevi uma única letra no mesmo. E, após algum tempo, abandonei-o por completo. Vejo agora que isso pode até mesmo, por um lado, ter sido providencial. Pois, cá estou hoje, com idéias – oxalá – mais maduras e equilibradas; correndo um risco menor de sofrer futuras vergonhas acerca do que eu venha a expressar neste espaço.

Há uns 5 meses, se não me engano, a idéia de parir um blog retornou com força total. Pessoas, algumas talvez sem o saber, acompanharam esta gestação e ajudaram no pré-natal. Gelvane Fonseca (o homem mais maravilhoso do mundo, por acaso meu futuro esposo), o qual, com admirável paciência, aguentava-me relatando longamente minhas idéias para isto aqui – este belo rapaz também dividirá comigo a autoria de vários posts (beijo, amor!).

Sem esquecer meus amigos, e agora colegas de “blogueiragem”: Daniella Virmes (que ajudou na escolha desta plataforma), Zaine Sá (que ajudou a escolher o título menos tosco para batizar este rebento, dentre os vários nomes que habitavam minha mente bizarra; bem como auxiliou na escolha da imagem que ilustra o cabeçalho) e Bruno Ribeiro (com o qual, em nossas longas e produtivas conversas, dividi várias das idéias que aqui figurarão).

Partilhando com alguns desses seres minha vontade de abrir este canal, ficou bem mais fácil abri-lo, já que alguns deles pegavam no meu pé, cobrando. Meu muito obrigada, fofinhos!

Apesar de ser uma cristã (saudavelmente) convicta, não pretendo deter-me aqui a escrever apenas sobre Bíblia e cristianismo, mas também sobre ciência, notícias, humor, filosofia, música, livros, filmes e reflexões do dia a dia. Não por me considerar uma autoridade em quaisquer desses temas, mas por não acreditar que tais aspectos devam, ou possam, deixar de existir na vida de um cristão, ou nela viver de forma compartimentada.

Talvez eu deva preveni-los de que aqui não encontrarão um padrão. A forma de me expressar, embora possua um estilo em sua base, apresentar-se-á sob diversas nuances, dependendo do dia em que me encontre. Por vezes, tratando de temas doutrinários. Por vezes, devocionais. Por vezes, como em um artigo. Por vezes, como em uma conversa informal. Por vezes, amenidades. Por vezes, dramas existenciais. Por vezes, com seriedade. Por vezes, com humor (um pouco ácido, talvez). Por vezes, um adventista entenderá melhor o que quero dizer. Outras vezes, será a vez do ateu ou do não-religioso. Em outras ocasiões, o tema será universal. Enfim, estão prevenidos.

Pode ser que com esse método um tanto “inconstante” eu não consiga angariar leitores cativos. Se, contudo, este ''bróg'' vier a ser um mero ponto na net, no qual neófitos, cristãos rodados, ateus, não-religiosos, religiosos de outros credos, nerds e vagabundos possam deter-se por um momento, dou-me por satisfeita, porque, né? pretensão pouca é bobagem.

Meu objetivo, acima de tudo, como questão de honra, é tentar desfazer alguns mitos que assolam o cristianismo nos círculos sociais por aí afora e nos próprios círculos cristãos. A idéia é ser fiel ao que você pode ler na descrição deste blog. Sem querer fazer marketing sensacionalista, mas o desenrolar disso chocará alguns e confortará outros. Não que eu tenha prazer em ser polêmica, só que às vezes é inevitável.

This is it. Pretendo tornar isto aqui um refúgio para os austeros e/ou, como eu, idiotas do mundo. Sua participação, seja elogiando ou descendo a lenha (com classe, always), será muito bem-vinda.

Depois de tudo isso, alguém poderá dizer: “Aff! Pra quê essa apresentação toda? É só um blog!”. Quer saber? Morra, ser das trevas. Dou início agora a este imbróglio.

Terno abraço.